Deixaste-nos há 27 anos, Amigo Zeca. No dia 23 de Fevereiro, como hoje. No mesmo ano em que eu decidi regressar a Portugal, depois de 12 anos de emigração.
Regressei porque pensava que iria encontrar um
país onde estava consolidada a democracia que tu ajudaste a construir e que
foste imprescindível para alcançar. Cedo me apercebi que isso não passava de
uma ilusão e que a palavra “democracia” já começava a significar apenas aquele
acto de ir depositar, de quatro em quatro anos, um papelinho numa urna e que
ajudaria a decidir que “Vampiros” nos iriam governar nos quatro anos seguintes.
Lembro-me bem que, quando emigrei, levei comigo uma mala a abarrotar com cerca
de cinquenta discos de vinil, pela qual a minha mãe teve que pagar um balúrdio
para a poder levar comigo no avião. Entre esses discos, havia meia dúzia que
era da tua autoria, Zeca. A essa meia dúzia juntei mais alguns, que fui comprando,
através dos tempos, e que ouvia vezes sem conta, naquele país onde nem sequer
eras conhecido. Davas-me força, Zeca. E dás-me força. E sabes bem que “Enquanto
há força”…”seremos muitos, seremos alguém” (http://www.youtube.com/watch?v=bUDGSbi7-Zs).
A primeira canção que te ouvi cantar foi “Os Vampiros” (http://www.youtube.com/watch?v=ZUEeBhhuUos). E puseste-me a pensar, Zeca. Foi, talvez, em 1965 ou 66. O vampiro-mor era o
Salazar, que te proibia as canções. Mas nós arranjávamos sempre maneira de te
ouvir. Outros vampiros se seguiram até ao dia em que o povo cantou a “Grândola,
vila morena”. A partir daí, os vampiros esconderam-se. Durante algum tempo.
Demasiado pouco tempo. Depois, franqueámos-lhes as portas e eles aproveitaram e
começaram a ressurgir. E tu, sempre atento, já lhes rezavas a “Ladainha do
Arcebispo” (http://www.youtube.com/watch?v=TTUel_YiDuY). E continuaste sempre a compor e a cantar contra os vampiros. Mas, disfarçados
de democratas e sempre enganando o povo, os vampiros foram-se reproduzindo.
Começaram por ser lobos com pele de cordeiro, mas, a pouco e pouco, foram
tirando a pele. E, hoje estão aí em força. Sem disfarce. Os vampiros já não têm
pés de veludo. Chupam-nos o sangue à descarada. Mas, graças a ti, Zeca, que
nunca morreste, a manada está a acordar. E tem cantado a “Grândola” aos
vampiros. E “Os vampiros” aos vampiros. E até os vampiros já cantaram a
“Grândola”, para disfarçar. Mas não disfarçam nada, porque se não sabem a
música, muito menos sabem a letra. Mas nós cá estamos para os ensinar. E é o
que temos feito. Onde quer que os vampiros vão, onde quer que se escondam, têm ouvido
o teu hino, Zeca. O nosso hino. Já entram e saem por portas traseiras, mas só
se arrancarem os ouvidos deixarão de ouvir a “Grândola, vila morena” (http://www.youtube.com/watch?v=q_2SWPX47OQ). Já é internacional.
Nem que a privatizem, Amigo Zeca. Nem que a vendam ao desbarato, a “Grândola”
sempre foi e será sempre do povo.
O dia em que a deixarmos de cantar, é o dia em que a morte sairá à rua (https://www.youtube.com/watch?v=5IAlrXheQ7I).
Traz Outro Amigo Também
José Afonso
José Afonso
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